Minimizar custos sem os medir? Como?

Minimizar custos sem os medir? Como?

Análise crítica à posição de João Galamba sobre custos do sistema elétrico. Portugal teve o maior aumento de preços de eletricidade da UE (+14%). Porque resistir a estudos rigorosos de custos totais?

Artigo Longo. EM 3 LINHAS:

  1. O ex-Secretário de Estado João Galamba criticou a proposta do Governo de estudar custos totais do sistema elétrico
  2. A sua posição: “não precisamos de estudos, o mercado resolve tudo”
  3. Este artigo mostra porque essa posição está errada - e porque os preços da luz subiram 14% (o maior aumento da UE)

Este é o segundo artigo em que analiso textos do ex-Secretário de Estado da Energia, João Galamba, por dever de rigor: quem ocupou responsabilidades desta dimensão deve ser confrontado com o escrutínio técnico das suas afirmações. O objetivo é simples - oferecer contraditório e verificação independente sobre matérias que exigem precisão, não retórica.

No texto mais recente, “Minimizar os custos totais do sistema” (24/10/2025) , João Galamba reage ao anúncio do atual Secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Barroca, sobre a intenção de realizar estudos de custos totais do sistema elétrico.

A conclusão de Galamba é categórica: “Não é um estudo, é um processo.”

Segundo ele, a minimização de custos não resulta de análises comparativas de tecnologias, mas da concorrência no mercado e de uma gestão “adequada” do sistema.

Concordo com várias premissas: o LCOE é insuficiente para comparar tecnologias; o sistema elétrico tem propriedades emergentes; e o gestor do sistema não escolhe diretamente o mix de geração.

Mas a conclusão - de que estudos de custos totais são dispensáveis - revela uma incompreensão fundamental sobre como se faz planeamento sério.

Um bom processo não dispensa análise rigorosa: exige-a.

Não é o estudo ou o processo - é o estudo para o processo.

# O que Galamba acerta

As limitações do LCOE são bem conhecidas: 1000 MW nucleares não equivalem a 1000 MW fotovoltaicos. Uns são despacháveis, outros intermitentes; uns fornecem inércia naturalmente, outros não.

O que é o LCOE?

O Levelized Cost of Energy (LCOE) é o custo médio de produzir 1 kWh de eletricidade ao longo da vida útil de uma central.

Exemplo simplificado: Se uma central solar custa 1 milhão €, funciona 25 anos e produz 50 milhões de kWh, o LCOE é 0,02€/kWh.

O problema: Não conta custos de integração no sistema (armazenamento, backup, reforços de rede).

Despachável vs. Intermitente

Despachável: Pode produzir eletricidade quando necessário

  • Exemplos: nuclear, gás natural, grandes hídricas
  • Vantagem: controlo sobre quando produzem

Intermitente: Produz quando há recurso natural disponível

  • Exemplos: solar (quando há sol), eólica (quando há vento)
  • Desafio: não produzem necessariamente quando mais precisamos

O sistema elétrico é, de facto, mais do que a soma das suas partes: tem propriedades emergentes - características que só aparecem quando todas as partes trabalham em conjunto, como um engarrafamento que surge mesmo sem nenhum condutor individualmente querer criá-lo. Estas propriedades emergem da interação entre produção de eletricidade, consumo, armazenamento e redes de transporte.

E sim, o gestor do sistema não determina centralmente que centrais se constroem.

Até aqui, nada a objetar.

# A falácia central: o processo sem análise

Galamba defende que o sistema deve ser “planeado adequadamente”, que se deve “tirar partido da diversidade de tecnologias” e que o gestor deve assegurar a “prestação ótima de serviços”.

A pergunta óbvia é: como se faz tudo isto sem analisar custos e trade-offs?

É como pedir a um engenheiro que desenhe uma ponte sem cálculos estruturais.

“Não precisa de estudo”, dir-lhe-íamos. “Confie no processo.”

O absurdo é evidente.

Como se define “planeamento adequado” sem métricas?

Como se identifica o que é “ótimo” sem comparações quantitativas?

Como se escolhe que “diversidade” faz sentido sem conhecer o custo de integração de cada tecnologia?

Galamba não responde.

A retórica cobre um vazio metodológico - o mais perigoso de todos, porque soa prudente enquanto desarma a razão.

# Mercado vs. planeamento: a confusão conceptual

Galamba escreve que “a geração é livre e concorrencial, não um sistema de planeamento central”.

Mas essa descrição ignora a realidade concreta do setor elétrico português, saturado de intervenção pública:

  • Contratos por Diferença e tarifas feed-in garantidas
  • Leilões solares com preços fixos por 15-20 anos
  • Quotas obrigatórias de renováveis
  • Licenciamento seletivo de centrais
  • Mecanismos de capacidade, que o próprio cita
  • PSO e subsídios à cogeração

Principais Intervenções Públicas no “Mercado Livre”

  • Contratos por Diferença (CfD): Estado garante preço fixo por 15-20 anos
  • Tarifas feed-in: Produtor recebe preço garantido superior ao mercado
  • Quotas obrigatórias: Lei obriga % mínima de renováveis
  • Mecanismos de capacidade: Estado paga para manter centrais disponíveis
  • PSO (Public Service Obligations): Taxas na fatura para financiar políticas energéticas

Resultado: Não é um “mercado livre” - é um mercado altamente regulado.

Invocar o “mercado livre” num sistema desenhado por reguladores não é análise económica - é wishful thinking.

# O paradoxo da intervenção negada

O mesmo texto que rejeita planeamento reivindica, na linha seguinte, que o gestor do sistema deve dispor de “instrumentos de contratação” e “maior ou menor intervenção pública” para assegurar que os serviços são prestados “de modo ótimo”.

Mas ótimo segundo que critério?

Como se mede o que é ótimo sem comparar alternativas?

Saber o que é ótimo implica avaliar custos relativos de tecnologias, armazenamento, reforços de rede, serviços de sistema.

Ou seja, fazer exatamente aquilo que Galamba descarta.

Quer intervenção informada sem produzir informação - um paradoxo perfeito.

# A experiência internacional

Os países que lidam há mais tempo com a transição energética seguem o caminho inverso: estudam primeiro, decidem depois.

# Reino Unido

O Department for Energy Security and Net Zero publica análises regulares de system costs, os chamados enhanced levelised costs, que incorporam custos de integração, reforço de rede e balanceamento.

O próprio BEIS (antecessor do DESNZ) desenvolveu estas métricas porque o LCOE isolado se tornara incapaz de captar o verdadeiro custo sistémico de cada tecnologia [1][2].

# França

A RTE conduziu entre 2021 e 2022 o estudo Futurs Énergétiques 2050, dois anos de trabalho com todas as partes interessadas.

Modelizou seis cenários até 2050, quantificando custos totais, impactos ambientais e implicações para modos de vida [3][4].

O exercício simulou o funcionamento do sistema elétrico europeu hora a hora ao longo de 30 anos, com 200 cronologias meteorológicas [5].

É disso que falamos quando dizemos “planeamento”.

# Alemanha

O Fraunhofer ISE publica desde 2010 estudos periódicos sobre custos de eletricidade, integrando não só o LCOE mas também os custos de armazenamento e flexibilidade do sistema até 2045 [6][7].

Estarão todos estes países errados?

Ou será Portugal o único suficientemente autoconfiante para planear sem medir?

# Os custos que Galamba não quer ver

Renováveis intermitentes têm custos sistémicos reais, que alguém paga - quase sempre o consumidor:

  • Curtailment: produção desperdiçada por falta de procura, armazenamento ou capacidade de exportação
  • Backup: centrais de gás ou hidroelétricas mantidas para cobrir períodos sem sol nem vento
  • Armazenamento: baterias, bombagem, hidrogénio - tudo caro e finito
  • Reforços de rede: indispensáveis para acomodar geração distribuída e evitar congestões

Os 4 Custos Ocultos das Renováveis

  1. Curtailment: Desperdiçar eletricidade produzida (ex: muito sol ao meio-dia, pouca procura)
  2. Backup: Manter centrais de gás “de reserva” para dias sem vento/sol
  3. Armazenamento: Baterias ou barragens para guardar energia para mais tarde
  4. Reforços de rede: Novos cabos e subestações para transportar eletricidade de painéis solares distribuídos

Quem paga? O consumidor, através da fatura.

Inércia no Sistema Elétrico

Centrais tradicionais (turbinas a rodar) mantêm a frequência estável naturalmente - como um volante que continua a girar mesmo com pequenas variações.

Painéis solares param instantaneamente se faltar sol, criando instabilidade. Resolver isto custa dinheiro (baterias, controladores eletrónicos).

O artigo anterior contém uma explicação sobre inércia no sistema elétrico e suas implicações.

Os números falam por si: entre o segundo semestre de 2023 e o mesmo período de 2024, os preços da eletricidade doméstica em Portugal subiram 14%, o maior aumento da União Europeia [8][9].

No primeiro semestre de 2024, o preço médio atingiu 0,254 euros por kWh - ligeiramente abaixo da média europeia, mas entre os mais altos do nosso histórico recente [10].

O apagão espanhol de abril de 2025 ilustrou dramaticamente estes custos: como analisou o Eng. José Allen Lima , a fragilidade resultou de “inércia reduzida por falta de contributo dos geradores clássicos”. A Red Eléctrica de España - que inicialmente se considerava isenta de culpa - teve de solicitar medidas de exceção urgentes, incluindo “grande uso das térmicas CCGT” e investimentos em compensadores síncronos. Tudo custos que não constavam do LCOE das renováveis já instaladas.

Se “o processo” funciona tão bem, porque é que a fatura não baixa?

# Porque a análise é indispensável ao processo

Planeamento energético sério integra estudo e processo num ciclo virtuoso:

  1. Análise - identifica custos totais e riscos de diferentes cenários
  2. Planeamento - define necessidades e instrumentos de contratação
  3. Mercado - opera dentro desses parâmetros, gerando eficiência marginal
  4. Monitorização - atualiza dados e ajusta políticas

Não escolhemos entre analisar e agir. Analisamos para agir bem. É assim em engenharia, medicina, finanças - e devia ser também em energia.

# Motivação: porque Galamba resiste à análise?

Três hipóteses podem explicar a resistência:

  1. Proteger decisões passadas. Como Secretário de Estado (2019-2022), Galamba defendeu políticas específicas; um escrutínio retrospetivo rigoroso poderia revelar que nem todas foram ótimas.

  2. Compromisso ideológico. O receio de que uma avaliação objetiva desfaça narrativas políticas consolidadas.

  3. Incompreensão técnica. Confundir “escolher tecnologias” (o que estes estudos não fazem) com “avaliar custos” (o que fazem e devem fazer).

Seja qual for a motivação, o resultado é o mesmo: planeamento sem informação, fé onde devia haver método.

# Conclusão

O anúncio do Governo de estudar rigorosamente os custos totais do sistema é bem-vindo e necessário.

A resistência de Galamba não tem fundamento técnico nem suporte em boas práticas internacionais.

Portugal precisa de decisões baseadas em evidência, não em fórmulas vagas sobre “processos”.

O estudo deve ser transparente (pressupostos claros, dados públicos), abrangente (todos os cenários, inclusive os politicamente incómodos) e metodologicamente sólido.

Deve informar decisões, não substituí-las - mas sem essa informação, as decisões são inevitavelmente cegas.

Como concluiu Allen Lima sobre o caso espanhol: “o LCOE das renováveis não representa o seu custo total no sistema integrado” e “a perda por excedentes deve ser atribuída a estes investidores”. É precisamente para quantificar estes custos reais que os estudos são indispensáveis - não opcionais.

Galamba tem razão numa coisa: minimizar custos não é apenas fazer um estudo.

Mas sem o estudo rigoroso que ele desvaloriza, também não é um processo sério - é apenas esperança travestida de pragmatismo.

E os consumidores portugueses, que enfrentaram o maior aumento de preços da UE, merecem melhor do que fé.


# Perguntas Frequentes (FAQ)

Isto significa que renováveis são más?

Não. Significa que precisamos de saber quanto custam realmente (incluindo custos de integração) para planear bem. As renováveis são essenciais para a descarbonização, mas devemos implementá-las de forma eficiente e transparente.

Outros países fazem estes estudos?

Sim. Reino Unido, França e Alemanha fazem-nos há anos, com metodologias robustas e transparentes. Portugal seria a excepção se não fizesse.

O mercado não resolve tudo automaticamente?

Não. Há subsídios, quotas obrigatórias e contratos garantidos pelo Estado. Precisamos de saber se estamos a gastar bem o dinheiro dos contribuintes e se as políticas adotadas minimizam efetivamente os custos para os consumidores.

Qual é o risco de não fazer estes estudos?

Decisões baseadas em intuição ou retórica política em vez de análise rigorosa. O resultado pode ser desperdício de recursos públicos, preços mais altos para consumidores e um sistema menos eficiente do que poderia ser.


# Referências

[1] Office for Budget Responsibility (2023). A more comprehensive measure of the costs of energy. https://obr.uk/box/a-more-comprehensive-measure-of-the-costs-of-energy/

[2] Carbon Brief (2021). Wind and solar are 30-50% cheaper than thought, admits UK government. https://www.carbonbrief.org/wind-and-solar-are-30-50-cheaper-than-thought-admits-uk-government/

[3] RTE (2021-2022). Futurs énergétiques 2050: les chemins vers la neutralité carbone. https://www.rte-france.com/analyses-tendances-et-prospectives/bilan-previsionnel-2050-futurs-energetiques

[4] RTE (2022). Synthèse - Futurs énergétiques 2050. https://www.rte-france.com/synthese-futurs-energetiques-2050

[5] RTE (2021). Futurs énergétiques 2050 - Principaux résultats (PDF). https://assets.rte-france.com/prod/public/2021-10/Futurs-Energetiques-2050-principaux-resultats_0.pdf

[6] Fraunhofer ISE (2024). Photovoltaic Plants with Battery Cheaper than Conventional Power Plants. https://www.ise.fraunhofer.de/en/press-media/press-releases/2024/photovoltaic-plants-with-battery-cheaper-than-conventional-power-plants.html

[7] Fraunhofer ISE (2021). Levelized Cost of Electricity: Renewables Clearly Superior to Conventional Power Plants. https://www.ise.fraunhofer.de/en/press-media/press-releases/2021/levelized-cost-of-electricity-renewables-clearly-superior-to-conventional-power-plants-due-to-rising-co2-prices.html

[8] Eurostat (2025). Electricity price statistics - Statistics Explained. https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Electricity_price_statistics

[9] Eurostat (2024). Tax hikes hinder gas price drop, raise electricity costs. https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20241028-1

[10] Observador (2024). Preço da eletricidade subiu 15% no primeiro semestre, mas Portugal paga menos que Espanha e média da UE. https://observador.pt/2024/10/28/preco-da-eletricidade-subiu-15-no-primeiro-semestre-mas-portugal-paga-menos-que-espanha-e-media-da-ue/